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21/05/2004 22:28
Marcas do bichano
POR ALEXANDRE ROSSI*
COLABOROU DANIELA RAMOS
As marcas ficam por toda a casa (e também nas redondezas). É evidente que um bichano esteve por lá. São sofás, camas, travesseiros, tapetes e carpetes com as provas do delito. Alguns preferem cultuar - ou talvez destruir - a natureza buscando árvores e galhos para arranhar. Outros dão um toque de ousadia na escolha de seus alvos. Arranham jeans, tênis, bichos de pelúcia e outros similares. Mas por que os gatos arranham tanto? Puro instinto destruidor ou excessivo desejo de manter suas unhas aparadas e afiadas?
Fêmeas e machos, adultos e filhotes (a partir de cinco semanas de vida), sozinhos ou em grupo, enfim, todos os gatos arranham. O hábito aparece inclusive naqueles que já não têm mais suas unhas. O quê? Isso mesmo. É comum verificarmos que gatos que tiveram suas unhas extraídas cirurgicamente (justamente porque arranhavam demais) continuam com o característico comportamento de esticar suas patas dianteiras, apoiá-las sobre determinadas superfícies e movimentá-las como se estivessem enfincando suas garras. Curioso? Mais do que isso: revela que com seus arranhões os gatos estão buscando algo além do que unhas perfeitas.
Os gatos arranham por várias razões: espreguiçar, brincar, aliviar frustrações e, inclusive, afiar as garras. Mas o principal motivo mesmo é a comunicação. Arranhar seria uma maneira não-verbal de se comunicar com o mundo. Esfregando e enganchando suas garras sobre superfícies, os gatos fazem marcações no ambiente. Deixam sinais odoríferos e visuais que são facilmente detectados e reconhecidos por outros gatos. Não se sabe ao certo qual seria o conteúdo informado por esses sinais. Talvez queira dizer: "Passei por aqui e este território é meu!", ou até "Passei por aqui e estou vivo!". Pesquisas já revelaram que gatos de rua arranham muito mais na presença de outros gatos do que quando sozinhos. Talvez isso seja mais uma evidência de que com seus arranhões os gatos querem mesmo é se comunicar.
Mas e quando os arranhões viram um problema? Sofás destruídos, estantes rabiscadas, cortinas desfiadas, roupas virando "pano de chão"... O bichano passa a ser encarado como um "destruidor" e o relacionamento com a família vai se desmoronando. Alguns chegam até a perder seus lares. Como sair dessa? É importante que sejamos conscientes. O objetivo não é eliminar o hábito de arranhar, mas sim disponibilizar locais e situações onde o gato possa tranqüilamente exibir seu comportamento sem fazer estragos.
Para começar, devemos fazer com que o local onde seu gato gosta de arranhar se torne desagradável e até inacessível. Uma maneira de fazer isso é colar fitas adesivas dupla-face no local. Ele não terá mais prazer em voltar ao seu cantinho preferido para arranhar. Ao mesmo tempo devemos oferecer a ele uma superfície própria: um arranhador para gatos. Este deve ser colocado nos locais onde o gato passa a maior parte do tempo. Perto de onde ele costuma descansar ou brincar, por exemplo. Se o seu gato costuma arranhar tapetes e carpetes, o arranhador pode ser colocado em cima da região mais destruída. Cuidado ao posicioná-lo. Qualquer acidente que possa assustar e traumatizar o animal acabará com o ensinamento. O ideal é que sejam colocados arranhadores em até 2 ou 3 lugares, se possível. Ensine-o a usar essa nova superfície estimulando brincadeiras no local, espalhando brinquedos pela redondeza ou até pendurando alguns no arranhador. Outra alternativa é depositar catnip, a famosa erva altamente atrativa para os gatos, no local. Acompanhe-o nessa iniciação, mas não tente esfregar as unhas dele no arranhador: isso iria forçá-lo e o gato deve aprender naturalmente, mesmo que para isso você tenha que dedicar algumas horas de ensinamento. Agrade-o quando ele agir corretamente. Há quem diga que o proprietário pode até arranhar um pouquinho para que o gato aprenda lhe observando e imitando! Você pode tentar...
Ainda melhor do que isso é prevenir o problema fazendo uso dessas técnicas já quando adquirir um novo gatinho. Caso você não possa comprar um arranhador, confeccione-o, mas lembre-se de escolher superfícies atrativas para seu gato. Atente-se para suas preferências. Existem gatos que gostam de arranhar locais lisos e macios, outros preferem superfícies ásperas e duras. Cada gato é um indivíduo diferente.
Devemos sempre lembrar que o hábito de arranhar é um comportamento natural do gato. Ele faz parte de seu hábito, assim como o espreguiçar, por exemplo, faz parte de nossa rotina. Portanto, não devemos pensar que um gato que arranha tudo é um verdadeiro "detonador" de casas. Eles não tem a intenção de destruir, por isso busquemos uma solução satisfatória para nós e para eles. Extrair cirurgicamente suas unhas deve ser uma das últimas opções a se fazer. Lembre-se de que, dependendo do ambiente onde ele vive, ele pode precisar delas. O bem-estar e o respeito à natureza do nosso bichano são fundamentais.
Personalidade de gato
A ciência já é capaz de explicar porque Félix é diferente de Garfield
POR ALEXANDRE ROSSI *
COLABOROU DANIELA RAMOS
Para os donos, cada bichano é um indivíduo diferente. Brincalhões ou reservados, atrevidos ou recatados, audaciosos ou prudentes, melindrosos, modestos, egocêntricos, ou até temperamentais, cada gato parece ter sua própria identidade. Alguns deles, ao longo da história, alcançaram a fama e até ficaram imortalizados em nossas lembranças graças aos seus temperamentos marcantes. Quem não se lembra do criativo gato Félix, sempre cheio de truques, malabarismos e artimanhas? E do melindroso, guloso e preguiçoso Garfield? Sem disfarces e com ar de declaração ("gostem de nós do jeito que somos"), os gatos deixam cada vez mais claro que "personalidade" é algo que não lhes falta!
Até bem pouco tempo atrás estava muito longe da ciência aceitar que gatos poderiam diferir uns dos outros, quer seja no relacionamento com as pessoas ou nas interações com outros gatos. Felizmente, a realidade mudou e atualmente diversas pesquisas têm comprovado que, de fato, o que proprietários observam e relatam é verídico: cada gato tem sua própria identidade. Estudo recente realizado nos EUA filmou inúmeras sessões onde diferentes gatos eram colocados junto de pessoas não familiares. Verificou-se que os gatos exibiam comportamentos bem diferentes, de modo que foram classificados em: gatos amigáveis reservados (sem iniciativa), gatos amigáveis com iniciativa e gatos não-amigáveis. Dentre os gatos amigáveis, por exemplo, havia aqueles que preferiam contato através de brincadeiras, outros preferiam afagos e carícias, e por fim, havia aqueles que procuravam manter um contato à distância, como num verdadeiro "amor platônico".
Mas o que será que determina esses diferentes temperamentos dos gatos domésticos? De onde vem esta tal "personalidade"? Estudiosos do assunto acreditam que o temperamento de um gato seja resultado de uma combinação de fatores, tais como genética, experiências com a mãe e irmãos de ninhada enquanto filhote, ambiente onde vive e até a própria personalidade do dono. Por exemplo, um gatinho órfão que foi privado das lambidas e esfregamentos de sua mãe e irmãos de ninhada terá grandes chances de se tornar um gato adulto medroso e intolerante às carícias. Da mesma forma, um gatinho vivendo em um ambiente com crianças lhe importunando o tempo todo (obrigando-o a ficar no colo e até usando seu rabo como brinquedo) provavelmente se tornará um adulto assustado e até agressivo.
Mas, sem dúvida, a genética tem uma notável parcela de contribuição no temperamento de um gato. É bastante comum aconselharmos as pessoas a investigarem o temperamento dos pais de um gato, principalmente quando se busca um bichinho bastante dócil. Quem nunca ouviu dizer que gatos amigáveis tendem a gerar filhotes também amigáveis? Isso é verdade, já que mãe e pai transferem para os filhotes genes que contêm toda informação referente a seu organismo, incluindo seu temperamento. É por isso que os filhos, e aí podemos incluir o ser humano, apresentam características maternas e paternas em sua personalidade. A mãe, no entanto, não transmite simplesmente informação genética para seus filhos. Desde que nascem e enquanto são ainda pequenos a mãe lhes transmite ensinamentos bastante importantes para a vida futura, daí a importância dos primeiros contatos dos filhotes com a gata. Já o pai tem pouco ou nenhuma participação nesta fase de ensinamentos, já que os machos praticamente não atuam na criação dos filhotes.
Dessa mistura de fatores herdados e ensinados é que surgem os diferentes temperamentos dos felinos. Embora apareçam e se desenvolvam enquanto o animal é ainda filhote, irão permanecer também no indivíduo adulto. Uma vez formada, a personalidade do gato permanecerá por anos e talvez até por toda a vida. Se enquanto filhote seu gatinho já demonstra, por exemplo, que é capaz de truques, artimanhas e até trapaças para conseguir comida, tenha certeza, quando adulto, será um gato bem malandrinho; daqueles que atacam sua geladeira para afanar alguns petiscos e guloseimas.
Independente do temperamento do felino, o importante é saber entender e compreender que cada gato é um indivíduo diferente. Devemos aceitá-los tal como são e lembrar que uma das grandes características admiráveis nos gatos é justamente o fato de terem "personalidade".
O mundo pelos olhos felinos
* Por Alexandre Rossi
Colaborou Daniela Ramos
Gato é sinônimo de liberdade, inteligência e curiosidade. Principalmente curiosidade. Mas ao contrário de nós, os gatos precisam fazer muito menos esforço para perceber o que está acontecendo a seu redor. Eles não chegam ao extremo de "enxergar pelas costas", mas visualizam elementos que estão ao seu redor com menos esforço. Assim, se alguém passar ao lado ou mesmo por trás de um gato, ele não precisará deslocar muito a cabeça para ver quem é. Isso se deve ao seu sofisticado aparelho visual, típico nos predadores, cujos olhos mostram-se mais projetados da superfície e apresentam um campo visual bastante grande, de 220° a 290° (a humana é de 180°).
Embora enxergue bem durante o dia, a visão do gato é bastante adaptada a visão noturna. Seus olhos apresentam estruturas e mecanismos totalmente direcionados para a visualização na presença de pouca luz, fazendo com que aproveitem melhor a luz do ambiente (estima-se que eles necessitam de cerca de 1/6 da quantidade de luz que para nós é o limite mínimo para a visão).
Um desses mecanismos é dilatação pupilar, a extrema adaptabilidade das pupilas que se dilatam ou contraem conforme a quantidade de luz, permitindo uma melhor visualização do ambiente. Quem nunca reparou na diferença entre os olhos de um gato durante o dia e à noite? Aquele filetinho escuro central se transforma numa esfera negra que toma grande parte do olho. Agora, seus olhos estão ainda mais abertos para a escuridão.
Mas nem tudo é glória. Se por um lado os gatos nos superam na capacidade de enxergar durante a noite, por outro, perdem na acuidade visual, pois eles têm apenas 10% da nossa capacidade de visualizar imagens detalhadas. Isso se deve às mesmas estruturas oculares que maximizam a visão noturna, que diminuem a resolução das imagens, tornando-as, na maioria das vezes, obscura. Além disso, eles apresentam pouca acomodação visual e uma leve miopia, que também resultam na visualização de uma imagem imperfeita.
Dessa forma, elementos como o movimento dos objetos, assim como variações de tamanho e algumas formas básicas são primeiramente visualizadas em detrimento aos detalhes. Portanto, se o seu gato não vem mais ao seu encontro quando você oferece aquela apetitosa ração de carne, não pense que agora ele prefere atum, talvez ele não esteja reconhecendo seu prato predileto. Chegue mais perto e então ofereça a ração. Agora sim, ele pode avaliar a oferta.
Seguindo o mesmo raciocínio, podemos imaginar que o gato não dará muita importância e poderá nem mesmo notar se seu brinquedo ambulante é um ratinho ou um ursinho, desde que do mesmo tamanho. Mas com certeza, você chamará sua atenção quando colocá-los em movimento. Ainda que ele não entenda o que aquele formato representa, será extremamente preciso ao agarrá-lo e lançá-lo pelos corredores.
Há divergências entre a possibilidade de visualização das cores. Estudos anatômicos já conseguiram comprovar a existência de componentes oculares e cerebrais necessários para a visualização e discriminação das cores, embora com algumas limitações e sem a certeza do quanto são funcionais. Cientistas americanos já provaram que os gatos são capazes de diferenciar o azul do cinza e o azul do verde, desde que o objeto colorido não esteja muito distante de seus olhos e seja de bom tamanho. Não se sabe ainda como eles enxergam essas cores, talvez o azul para eles seja visto como uma outra cor; certamente diferente do verde e do cinza. Talvez a compra de camas e brinquedos coloridos para seu gato seja uma tarefa inútil: para ele, talvez grande parte destas cores sejam, na verdade, tons de cinza.
(*) Alexandre Rossi, autor do livro Adestramento Inteligente, é zootecnista
especializado em comportamento animal e adestramento - www.bigfoot.com/~rossi
enviada por =^..^=Fabiana=^..^=
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